Omeletes Sem Ovos

Ao ler a entrevista de Miguel Pereira Lopes (que era para ter estado na SHiFT) ao DN apercebi-me de que é uma muito boa descrição dos problemas que tenho observado nos últimos dois anos no emprendedorismo em Portugal.

Concordo em particular com o ponto de vista em resposta à influência do intervencionismo do Estado no co-financiamento para o arranque de novas empresas:

Esse é um paradoxo do empreendedorismo. É subverter o fundamento desse conceito: se nós damos dinheiro, não estamos a estimular essa pessoa a encontrar ela própria os recursos necessários para levar avante a sua ideia.

Sou contra o financiamento público das empresas (com excepção dos casos onde existam factores sociais relevantes). Em primeiro lugar porque o dinheiro só por si não resolve nada e a sua existência pode até fazer atrasar o desenvolvimento saudavel de uma ideia e ocultar outros problemas.

Em segundo lugar porque somos todos humanos e gostamos de conforto. Ser empreendedor e fazer sacrifícios ajuda-nos a ir mais longe, a trabalhar mais pelo que não temos. O dinheiro dá-nos conforto e tira-nos a garra.

Aliás esta questão aplica-se ao investimento em geral. Empreender é saber fazer omeletes sem ovos (coisa em que nós Portugueses somos muito bons). A partir do momento que há dinheiro para comprar ovos tudo tudo muda. Antes de qualquer investimento (do estado ou particular) é necessário que um empreendedor encontre formas de resolver os seus problemas. Isso obriga a pensar no modelo de negócio, na estratégia, nos recursos humanos, ou seja, no negócio.

Isso sim, só por si, traz sempre bons resultados.

comments

9 Responses to “Omeletes Sem Ovos”

  1. Filipe Miguel Tavares on October 20th, 2008

    Dixit. Ou seja, a pensar no plano de negócio, algo que aparentemente é su- e i- real para a maioria dos empresários/empreendedores portugueses.

    Devo acrescentar que, mesmo quando há ovos (mesmo que sejam das categorias económicas - L, M ou S), nada impede (devia ser norma, mas enfim) que as omoletes sejam feitas só à medida das necessidades… não é preciso fazer tortilha só porque sim ou é giro, só porque se pode fazê-la.

    O truque, se é que existe, é sempre, sempre, sempre, ponderar os prós e os contras, ter uma postura de advogado do diabo: “tenho dinheiro para um ferrari, mas quero ou posso mesmo pagar o imposto de luxo, a (bomba de) gasolina, os pneus premium e a limpeza de estofos semanal?”

    My € 0,02 :-)

  2. Andre on October 20th, 2008

    @Filipe: e que bons € 0,02!

  3. Daniel Barradas on October 20th, 2008

    O que o estado devia de fazer era pegar nesse dinheirinho e pagar as suas dividas às empresas.

    Isso sim permitiria que houvesse uma verdadeira injecção de capital, aumento de emprego, aumento de salarios e não mandava tantas empresas ao charco.

    De que vale dar dinheiro se depois o estado é o primeiro a não pagar as facturas?

    Na prática estamos a criar empresas para irem à falência.

    E que história é esta de “pagamentos a 90 dias”? Andamos a brincar? Eu quando vou ao supermercado comprar pão não o pago a 90 dias.

    Devo dizer que os clientes que “seleccionei” do estado me pagam a tempo e horas, os outros cortei. Não é triste em tempo de crise mandar clientes às couves? É! Qual é a alternativa? É eu ir ao charco? não obrigado.

    Just my two cents.

  4. Filipe Miguel Tavares on October 20th, 2008

    @Daniel: sem querer fazer apologias de governos ou afins, God knows how I (don’t) like them, desde que me conheço nesta vida, quem trabalha para o Estado não o faz pelos pagamentos atempados, mas sim pelo volume de trabalho e pelas contrapartidas.

    A questão dos 60 ou 90 dias é verdadeira, é triste, mas é infelizmente habitual, seja ou não seja o Estado o cliente. É quase “cultura” portuguesa.

    Quem pode, paga a 60/90 dias… sempre! mesmo que não precise de o fazer. E se me perguntar: “e podiam pagar mais cedo?”, respondo “Podiam”. Mas porque o fariam se todos fazem o mesmo?

    Vou-lhe dar um exemplo: num determinado projecto, para uma determinada faculdade do Porto, ao fim dos 60 dias, perguntam-me: “e o comprovativo de não-dívida à Seg. Social?” - ao que eu (lorpa) respondo… “ah!… era preciso?”. Salvou a situação o factor mini-C, que “desbloqueou” o dito comprovativo em 2 dias em vez dos habituais 2 meses (na altura, agora à essa coisa da internet, que aparentemente acelera estas coisas).

    Desconhecimento puro do funcionamento do sistema, portanto. Isto para reforçar que, quem se mete nestes “trabalhos de Estado”, já à partida saberá o que o espera… e só entra porque, em princípio, quer.

    Mais € 0,02…

    @ André: já vai em € 0,06 ;-)

  5. Daniel Barradas on October 20th, 2008

    @Filipe não digo que não tenhas razão.

    Apenas não acho que perpetuar o problema seja a solução.
    Assim como acho que se “é cultura portuguesa” veio de algum lado e suspeito que vem exactamente do comportamento do estado.
    Assim como acho que se o estado faz esse tipo de manobras com as empresas grandes depois as empresas grandes sentem-se legitimadas para o fazerem com as pequenas e isso mata as pequenas todas e acaba com a concorrencia.

    É um ciclo vicioso. E o estado é efectivamente o maior player em termos de dinheiro para investir em portugal e quase todas as empresas dependem directa ou indirectamente dele.

    Mas o estado não é todo mau. Posso-te dizer que provavelmente 50 a 60% do meu volume de negocios é estado e pagam todos a 15 dias. Pagam inclusive melhor que os privados.

    Alem disso, e para provar que o estado até faz coisas boas, podes pedir essas declarações online, dão-te um código e basta dares autorização às intituições para irem elas lá ver e nunca mais te preocupas com isso. (só tens é de manter a seg social em dia) :)

    Nem tudo é mau … mas eu gostava mesmo é que o estado pagasse o que deve às empresas. E digo isto sabendo que ele a mim … não me deve nada nem eu lhe devo nada.

  6. Daniel Barradas on October 20th, 2008

    esses foram mais 0.02€ … ja vamos em 0.08€ … temos de ter cuidado pq ainda nos pedem para pagar o iva, o pagamento por conta e irc da coisa ou vamos todos de cana por fuga aos impostos! :P

  7. Filipe Miguel Tavares on October 20th, 2008

    @Daniel

    you’re right, só gostava de (ainda) ter a vontade (ou a ilusão, depende da perspectiva) de acreditar que o estado das coisas vai mudar ainda na minha geração :-)

    re: autorização nas declarações, sim, é óptimo, mas é recente, na altura do exemplo não havia momentum do estado-online como há agora… embora este momentum seja relativo, apesar de nos estarmos a tornar um país de serviços, actualmente a grande maioria das empresas ainda não tem vontade ou conhecimentos para “aderir” a esta nova vaga.

    @ André, Daniel: ai ai, € 0,10… ainda por cima com os vinhos, ainda te aparece a ASAE :-P

  8. Daniel Barradas on October 20th, 2008

    A ASAE é um bom exemplo …

    Assim que começou a fazer o que devia ia havendo uma revolta popular.
    Houve erros? Sim … mas os erros corrigem-se. Ao menos já tenho muito menos medo de ir comer fora e isso para mim já é positivo e um avanço.

    Ou seja, o estado mudar é dificil, mas o “povinho” tb tem de se mentalizar que as mudanças trazem coisas que não temos obrigatoriamente de gostar.

    Estamos é demasiado acomodados aos “direitos adquiridos” e a que o estado é que tem de nos proporcionar tudo.

    O que leva ao post original … dar dinheiro às empresas é dizer “não precisam de fazer nada … a malta orienta-vos uns trocos!” e depois quando elas caem “epah … pois pah … olha … ao menos torraste uns trocos do povinho e ficaram todos contentes!”

    Não acho que seja o caminho.
    :(

    PS: No entanto se realmente querem dar dinheiro à toa posso sempre dar o nib da minha empresa…

    0,12€ tá a ficar perigoso …

  9. Filipe Miguel Tavares on October 20th, 2008

    re: ASAE, é perfeitamente natural que haja erros, afinal de contas era a primeira vez que alguém fazia algo do género, pelo menos “a sério”.

    re: subsídios às empresas… é no mínimo ridículo a subsidiação da iniciativa privada com dinheiros públicos (concordo com o André quando diz “excepção dos casos onde existam factores sociais relevantes”), assim como são ridículos os tachinhos (ou tachões, consoante o grau de proximidade ao Sr. Presidente da entidade respectiva).

    É ridículo ver empresas públicas a concorrer, teoricamente em pé de igualdade, com empresas (subsidiadas por dinheiros públicos, claro está).

    É ridículo empresas privadas que arranjam trabalhos com base nas actividades e mão-de-obra públicas, ainda mais ridículo se uma pessoa dessa empresa estiver notoriamente ligada a essas entidades públicas (aquela tal faculdade do exemplo de há pouco? pelo menos dois casos destes).

    É ridículo construir instalações topo-de-gama nesses tais exemplos, aconselhadas e aprovadas pelas tais pessoas (docentes btw), que são as tais das mesmas das empresas que as vão usar.

    É ridículo ouvir pessoas a gabar-se disso (”sim, sim, temos instalações dessas, as melhores!”).

    Enfim… cala-te boca!

    @ André: esta vale pelo menos € 0,04 ;-)

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